quinta-feira, 14 de março de 2013

CÃES COM EPILEPSIA

Entender a Epilepsia
São 3 horas da manhã. Subitamente a D. Luísa acorda com barulho... "Ladrões cá em casa?". Dirigindo-se à sala, para sua surpresa, encontra Jack, o seu caniche a espumar da boca, com contracções musculares e uma poça de urina bem ao seu lado . O seu querido cão tinha tido uma convulsão. "Meu Deus, o Jack foi envenenado!!".

Dirige-se de urgência para o hospital veterinário, onde o diagnóstico foi bem diferente: EPILEPSIA. O cão tinha tido o primeiro de muitos ataques epilépticos que se seguiram pela sua vida fora. Mas porquê? Porque é que alguns cães têm esta doença? Afinal o que é epilepsia?

Trata-se de um sinal clínico que se caracteriza por contracções musculares voluntárias e que traduz uma disfunção cerebral, na qual há uma despolarização e excitação de certas células nervosas cerebrais. Os ataques duram poucos minutos. Esta anomalia é mais vulgar nos cães que nos gatos, mas pode também aparecer nesta espécie. Doenças orgânicas, virais (esgana, raiva), bacterianas, intoxicações, anomalias cerebrais (por vezes tumores), problemas na tiróide (hipotiroidismo), traumatismo craniano, diabetes, hipoglicémia (falta de açúcar no sangue), parasitas, doenças renais ou hepáticas, hipocalcémia (falta de cálcio no sangue) e algumas alergias (urticária), podem causar esta doença. Quando não é possível determinar a causa verdadeira, caracterizamos a epilepsia como sendo idiopática.

Certas situações podem despoletar convulsões sem que haja verdadeira epilepsia. Ou seja, um ataque convulsivo esporádico na vida de um animal não significa que o mesmo seja epiléptico! Uma das coisas que pode provocar um ataque convulsivo é um golpe de calor ou uma intoxicação.

Este mal não tem cura, mas existe actualmente esperança! Novas descobertas indicam que o tratamento do animal depende muito do empenho do donos. Pode-se reduzir significativamente as crises por meio de medicamentos eficazes administrados em intervalos regulares bem como por reajustar certas actividades, nomeadamente reduzindo situações de stress. Pensa-se que dentro de poucos anos estarão disponíveis testes de DNA para despistar cães portadores desta doença. Sim, porque a epilepsia pode ter uma componente hereditária.

A epilepsia idiopática é a forma mais comum da doença e estima-se que afecte cerca de 1,78% de todos os cães. Esta percentagem aumenta comparativamente em raças de cães com tendência a sofrer de epilepsia (ver quadro).


RAÇAS DE CÃES COM ELEVADO RISCO DE SOFRER DE EPILEPSIA GENÉTICA

  • BASENJI
  • BEAGLE
  • BOUVIER BERNOIS
  • KEESHOUND
  • MALAMUTE DO ALASKA
  • PAPILLON
  • BOXER
  • PASTOR ALEMÃO
  • CANICHE
  • COCKER SPANIEL
  • EPAGNEUL BRETÃO
  • PETIT BASSET GRIFFON
  • VENDEÉN
  • RETRIEVER DO LABRADOR
  • ROUGH COLLIE
  • FLAT-COATED RETRIEVER
  • FOX TERRIER
  • SETTER IRLANDÊS
  • SETTER GORDON
  • GOLDEN RETRIEVER
  • HUSKY SIBERIANO
  • TECKEL
  • WELSH CORGI

Os sintomas geralmente só aparecem quando o cão atinge 1 a 3 anos de idade. Alertam-se os donos para o facto de que, uma vez surgido um ataque, este pode ser o primeiro de uma série de muitos cujo aparecimento é impossível de determinar.

Existem 2 formas principais de manifestação da doença: o pequeno e o grande mal. Este último não passa nada despercebido: o cão fica parado, cerra os dentes, ladra ou geme, perde o controle da defecação e da micção, pode parar de respirar, ou ter a respiração muitíssimo acelerada, as pupilas dilatam-se, vomita, tem convulsões e inclusivé pode perder a consciência.

O pequeno mal traduz uma epilepsia "parcial" cujos sintomas são: correr freneticamente, esconder-se ou trepar em objectos de modo repetitivo, ter movimentos repetitivos de uma parte do seu corpo durante alguns minutos...(45 segundos a 3 minutos de duração). O pequeno mal pode ser mal interpretado como sendo um problema comportamental em vez de epilepsia.

Após este período (chamado ictus) segue-se uma série de comportamentos aberrantes nos quais o animal se apresenta desorientado, ansioso, temporariamente cego ou surdo, deprimido, com perda de equilíbrio, muito sedento e esfomeado.

Quando é que um ataque epiléptico pode ameaçar a vida do animal? Quando durar mais de 20 minutos ou se o cão tiver vários ataques repetidos sem parar. Neste caso a irrigação sanguínea do cérebro pode ficar muito comprometida e outras funções orgânicas vitais podem ser interrompidas.

Se o seu cão sofrer de epilepsia, não desanime! Bem medicado e com alguns cuidados, o seu animal pode levar uma vida absolutamente normal. À partida, um cão epiléptico não tem de sofrer eutanásia!

Que fazer em caso de ataque epiléptico? Se é a primeira vez que assiste a esta experiência desagradável, acalme-se! Em qualquer caso, proteja o cão de se magoar a si próprio, afastando objectos, móveis e outras coisas que possam magoar o cão durante o período em que o cão não tem consciência do que lhe está a acontecer. Permaneça junto dele. Verifique quanto tempo dura o ataque.

Segure e acalme o seu cão. Faça pouco barulho! Não se esqueça que se trata de uma hiperexcitabilidade cerebral! Afaste outros animais de roda dele. Contacte o veterinário. Certos ataques requerem tratamento urgente (golpe de calor, intoxicações, ataques que durem mais de 5 minutos) ao passo que geralmente o animal deve ficar sossegado a recuperar.

O veterinário executará várias análises ou radiografias a fim de determinar a verdadeira causa do ataque. É interessante notar que um estudo efectuado na Califórnia comprovou que 77% dos cães com hipotiroidismo tinham ataques epilépticos esporádicos. Um dos cães estudados teve cerca de 23 ataques num período de 3 anos até ser lhe diagnosticado hipotiroidismo. Com terapia hormonal este cão passou a ter uma vida normal, tendo ataques esporádicos apenas de 9 em 9 meses.

Medicar ou não medicar. Eis a questão! Se o veterinário não encontra causa específica, assume-se que o animal tem epilepsia idiopática, o que significa que pode vir a ter mais ataques no futuro... A maioria dos veterinários não se precipita em medicar um cão epiléptico. Geralmente medica-se um cão que tenha ataques com intervalos regulares muito curtos (dias ou semanas), não meses.

Um dos medicamentos que controla com sucesso as convulsões é o fenobarbital, cuja administração regular danifica as células hepáticas, pelo que deve ser associado a uma medicação que proteja o bom funcionamento do fígado. Por este factor ser tão preponderante, muitos médicos estão inclinados para a administração de brometo de potássio.

A dose de manutenção deve ser a mínima capaz de evitar os ataques. A medicação é para o resto da vida do animal, pois esta doença não tem cura, apenas tratamento de controle. A administração de Diazepam injectável durante o ataque pode ser muito útil para controlá-lo. Torna-se muito importante evitar situações de stress: viagens, cios, foguetes, etc. Todas estas situações podem despoletar uma crise! Por isso recomenda-se castrar um cão ou cadela epilépticos.

Portanto, a longo prazo podem-se esperar problemas hepáticos e não é raro um cão epiléptico morrer de cirrose, mas também não é raro um cão epiléptico durar mais de 7 ou 8 anos! Por isso não desespere se o seu cão tiver epilepsia! Evite situações de stress e mantenha a medicação estipulada pelo veterinário. Faça análises químicas ao fígado de 6 em 6 meses a fim de controlar alguma lesão secundária hepática e sobretudo compreenda o seu amigo e dê-lhe muito exercício e carinho! Vai ver que ele lhe retribuirá em dobro!!

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